O fantasma de 94
"Um futebol triste, contido, feio."
Essas foram as palavras do Tostão. O Tostão da frase de Armando Nogueira: "A tabelinha de Pelé e Tostão é a prova de que Deus existe." - esse Tostão. Palavras ditas por Tostão num comentário sobre a Copa de 94, vencida pelo Brasil e como muito se falou do episódio da morte de Telê, a Copa que poderia ser perdida se a de 82 fosse vencida.
Esse é o fantasma de 94. Quando Parreira diz que não é louco de jogar com 5 homens na frente (ele muito certo) numa Copa onde todos devem jogar com 10 atrás, ressoa na memória a presença de um fantasma pouco assustador, mas que comprometeria a beleza do jogo.
O medo de que talvez na Copa com maior nível técnico desde 82, a seleção jogue como 94. Não que seja ruim ganhar a Copa, longe de mim, mas todos queremos ver sobrar o Ronaldinho Gaúcho, o Kaká, Ronaldo, Adriano e os outros. O que se busca, talvez, seja o meio termo entre 82 e 94. Uma tarefa difícil, certamente difícil diante dos fantasmas 94 e o de 82.
Sobre esses assuntos, opiniões surgem. José Trajano diz que queria ver uma seleção para dar show, mesmo que uma repetição de 82. Afinal, já temos 5 campeonatos. Parreira, certamente sob a filosofia do 1x0 até o fim, discorda dele. O que é melhor? Ver a seleção provar ao mundo que é a pentacampeã porque possui um futebol místico que ninguém imita e podemos nos dar ao luxo de perder uma Copa para entreter o planeta ou ver a seleção provar que é hexacampeã porque sabe vencer adversários?
Que o futebol é uma competição, certamente ninguém duvida. Mas a Copa do Mundo me gera a dúvida se o futebol não se torna uma exibição. Cruyjff disse que para ele a seleção brasileira de 82 foi "a verdadeira campeã, para sempre". Quando se fala em 82 com boleiros mais velhos, eles se exaltam, emocionam, se elevam e mistificam as palavras, para, enfim, soltarem um suspiro de derrota, não só do time, mas um sentimento de condolência com o futebol como um todo, como se ali tivesse ficado claro que o futebol e arte não podem coexistir.
Quando se fala de 94, os boleiros lembram do futebol triste da Copa, não só do Brasil, do futebol triste, feio que Tostão comenta. Se lembram das parcas jogadas que enchem o pulmão de ar, fazem sair do sofá e olhar para os lados não crendo no rumo da bola, para enfim, lembrarem do grito entalado finalmente liberto de tetracampeão e, como um reconhecimento tardio, um parabéns não pelo futebol, mas pela taça aos jogadores que souberam abdicar do futebol para levar a taça.
Fica a expectativa de saber se há uma maneira de o Brasil repetir 70, com o futebol de 82 e a taça de 94. Fica ainda a esperança de ver seleções abusadas e excelentes, buscando pelo resultado com a bola e não com a canela. Fica a esperança de negar que Copa do Mundo e futebol são coisas diferentes, de negar o fantasma de 94, de negar o de 82, levar a Copa com brilho e raça, evitar estar muito sóbrio ou extremamente ébrio. Sim, sou um sonhador.

1 Comments:
Fred
O pior fantasma que acho é o de 1970.Você acha que futebol e política se misturam ? Lembra da Soninha da MTV e agora da ESPN ? Fiz um comentário no blog dela e ela me respondeu. Nossas opiniões divergiram. Depois levei a discussão para o meu blog. Gostaria de saber sua opinião.
Um abraço
Marco Aurélio
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